Um velório

Chegou a hora de mais um texto de um convidado! Dessa vez, a gente fica com um conto do Estevão Pires. Confiram Um Velório! Era dia de velório. O costume na cidade era fazer uma recepção para dar adeus ao finado. As pessoas cumprimentavam os familiares da casa, diziam coisas amáveis, procuravam um lugar para se acomodar e algo para comer. Não se economizava na comida por uma questão de educação. Os trajes eram os mais finos possíveis, mas sempre discretos. Havia um roteiro mais ou menos estável: recepção, discursos, comitiva para o cemitério, enterro, despedida.

O leitor acostumado aos deveres comezinhos imagina que não era fácil organizar um velório. Havia muito o que pensar e fazer, desde os detalhes como cadeira e toalha de mesa, até os momentos mais gloriosos, como o discurso de honra à beira do caixão. Também a papelada não podia ser deixada de lado.

Era com toda essa preocupação que Roberto estava enfrentando aquela manhã de sábado. Acordara cedo para resolver questões burocráticas no hospital. Passou na rua do comércio para comprar frutas e bebidas. Era preciso ainda buscar cadeiras emprestadas na casa do tio Antônio. O tanque do carro estava quase vazio, não podia descuidar, daria conta disso também. A comitiva seria provavelmente grande, na frente ia o carro funerário, com o corpo da avó, atrás o do próprio Roberto, levando parte da família.

Fez questão ainda de calibrar os pneus. Seguiria pela avenida principal até o tio Antônio, depois iria direto para casa. Afligiu-se um pouco porque estava em dúvida sobre onde guardara os sapatos. “Na parte de cima do guarda-roupa, com certeza. Ou será na lavanderia?”

Ao abrir a porta, não viu ninguém na sala. Os sofás não estavam dispostos como de costume — era preciso espaço. Ideia do próprio Roberto. Deixou as frutas na pia da cozinha, tirou as cadeiras do carro e passou a arranjá-las na sala e no quintal. Talvez algumas pessoas ficassem em pé. Em todo caso, sempre haveria a escada. Paciência, não se pode prever tudo, para desgosto de Roberto. Arrumar a roupa e... “o sapato! Vou tirar isso a limpo antes que eu me aflija de verdade”.

Tomou uma das cadeiras do caminho para usar de escada e poder alcançar a parte de cima do guarda-roupa. Estava longe, mas conseguiu pegar a caixa. Por descuido, deixou que escapasse pelos dedos — um dos sapatos acertou a cabeça da avó, que naquele momento estava de pé na porta do quarto. Não poderia haver inconveniência maior. Respirou fundo, apertou a boca contrariado e olhou para os olhos da velhinha, que não entendia nada. Ela acariciava a própria cabeça por causa da sapatada que

tomou.

“Vó, o que está fazendo? A senhora deveria estar deitada. Vamos, eu a levo para o quarto.” Pôs os braços no ombro dela e, pressionando com firmeza aquele corpinho velho, conduziu à senhora até o quarto, enquanto pensava em como sairia daquela enrascada.

“Por que a senhora se levantou?”

“Eu não sei. O que aconteceu?”

Roberto sentia-se cada vez mais contrariado. Pensou no imenso esforço que teve de fazer para pegar todas as cadeiras na casa do tio Antônio e colocá-las no carro. No dia anterior fez uma centena de telefonemas. Gastou dinheiro com boa comida. Anunciara em toda a vizinhança que a avó tinha falecido. E agora? Seria tratado como um homem ridículo, que faz trabalhos inúteis, que mente para chamar a atenção, que atrapalha o sábado dos

vizinhos sem nenhum motivo razoável. “Eu não posso ser tratado dessa maneira, não quero fazer papel de palhaço.”

“Vovó”, disse num tom carinhoso, tentando conter a sua impaciência, “a senhora precisa voltar a morrer. Não pode se levantar como se nada tivesse acontecido. A senhora teve ataque cardíaco. Esteve no hospital por dias, muitas pessoas mudaram a própria rotina para ir vê-la. Até dormiram sentadas ao lado da sua cama. Ontem de manhã a senhora deu o último suspiro. Seu coração parou. Dois médicos certificaram a sua morte. Eu tenho os papéis.”

Onde estavam?! Roberto exasperou-se. No armário!? Correu para a sala, abriu a gaveta. Estavam lá, ainda bem. As coisas não fugiram completamente do controle. Olhava para o que estava na sua mão e sentia que tudo voltaria ao normal, como estava nos documentos.

Entrou no quarto novamente, disposto a resolver aquela situação de uma vez por todas. Viu no relógio que os convidados não tardariam. O pai e a mãe estavam voltando do cabeleireiro. Era um dia importante demais para sofrer aquele tipo de transtorno.

“Por que a senhora está se portando de maneira tão desagradável?”, perguntou o neto. A velhinha, sentada na cama, apoiava-se com as costas na parede e olhava para a janela. De repente baixou o olhar, sentindo-se culpada. Roberto percebeu que estava no caminho certo. “Vamos, vovozinha, é hora de consertar a situação. Não me

desaponte!”, disse ele em tom de suave reprovação.

“Eu devo ter falado alguma coisa errada. Ou me enganei ao entrar em alguma porta. Não me lembro de nada! Não consigo pensar direito, nem sei bem o que deveria estar fazendo. Onde está seu avô?”

“Sabe que ele morreu, vovó. Também a senhora morreu ontem. Sei que gosta de improvisar, mas não é um bom momento.” Pensou em dizer: “Outra hora a senhora

continua com suas embrulhadas”, mas percebeu que a frase talvez não fizesse sentido, considerando a circunstância.

Ela olhou para as próprias pernas, mais brancas que de costume. Pôs a mão nas canelas. “Estão muito frias. Acho que preciso de um cobertor.”

“Seu lugar já está preparado, vovó. Logo a funerária vai trazer o caixão — que é lindo, aliás. Eu fiz questão de escolher um de madeira nobre, forrado de seda.” Ao falar do tecido que acomodaria a velha, lembrou-se de ter buscado a toalha de mesa na casa da tia

Nastácia, do outro lado da cidade. Passou no pequeno armazém que havia lá perto e comprou trufas deliciosas, tinha certeza de que todos iriam adorar. Era trabalho demais que não podia ser jogado fora assim, sem mais nem menos. Olhou novamente para o relógio.

“Eu me lembro de ouvir a sua mãe dizer que...”

“Por que a senhora não se deita? Sei que se fechar os olhos, as coisas voltarão ao normal; ninguém mais ficará confuso ou irritado.”

Obediente, a pobre vovozinha reclinou a cabeça no travesseiro. Roberto observou a respiração da velha por alguns minutos, ansioso para que o corpo parasse de se mexer logo. O movimento continuou. Ela estava irremediavelmente viva.

Foi até a sala. Viu o sofá, a comida na mesa, as cadeiras distribuídas com perfeição. As frutas, na pia, estavam suculentas. As bebidas, geladas. Tinha certeza de que não esquecera de avisar ninguém. Toda a documentação da morte estava encaminhada. Até mesmo a primeira parte do pagamento à funerária já havia feito. Mas agora... agora tinha de lidar com aquilo.

“Se eu...” Interrompeu o pensamento porque a quantidade de sangue... “Uma corda pode ser uma boa opção.” Mas não havia uma na casa. “Sair para comprar agora não é viável, pode chegar um convidado e eu não estaria aqui para recebê-lo. Precisa haver uma saída.”

Sentou-se no sofá e se sentiu cansado. “O mundo não é justo. As coisas nunca se organizam como devem.” Pressionou as têmporas. Ligar no hospital e pedir orientação ao médico seria uma confissão de fraqueza. Além disso, o papel já estava assinado por dois médicos, não havia o que fazer.

Voltou para o quarto onde estava a velha, que ainda respirava. Sentiu raiva, muita raiva. Todos conseguiam organizar um velório decente, ele não. Por que aquilo tinha que acontecer justo com ele? Não era justo!

Foi ao quarto se trocar. A roupa já estava pronta: terno, camisa, gravata, colete. E o sapato preto. Roberto faria tudo para manter as coisas nos trilhos. Era essa a única forma de lidar com qualquer coisa.

Ao pressentir a chegada do primeiro carro, estremeceu. “Vou levar as coisas adiante. Eu tenho que aprender a ignorar alguns detalhes, ou vou morrer de ansiedade uma hora dessas.” E esse pensamento pareceu agradável a Roberto. Se falecesse naquela hora, teria um velório pronto, organizado por ele mesmo. “Mas os papéis todos estão no nome da avó, estúpido!” Balançou a cabeça para jogar o pensamento fora. Não havia remédio, seguiria como se nada tivesse acontecido. Esperaria até o momento em que os homens da funerária levariam o corpo até o caixão. Nessa hora ela acordaria. “Paciência”, dizia Roberto a si mesmo, mas não conseguia se convencer.

Ouviu o barulho do carro chegando; Roberto sabia quem era. Teria de suportar o olhar reprovador de seu pai: “Eu tinha certeza de que você iria errar. Nunca consegue fazer nada direito.” Roberto ouviria isso tudo sem que saísse uma única palavra da boca do pai. A mãe, sempre mimando o filho, diria palavras de consolo que não convenceriam nem a ela mesma.

Desanimado, sentindo-se mais uma vez incapaz, permaneceria em silêncio, que vissem a avó viva, que o torturassem com gestos condenatórios, que a vergonha desabasse sobre a família por culpa dele. Roberto resignou-se.

Os pais entraram em casa, guardaram as sacolas, arrumaram alguns detalhes da decoração, trocaram palavras. Roberto ouvia tudo do quarto em que estava. Aproximaram-se do cômodo em que a avó dormia. “Meu cabelo ficou bom? Tem certeza?”, ouviu a mãe dizer. Era agora, agora veriam o desastre.

Os dois seguiram para o quarto de Roberto. Abriram a porta, viram o rapaz sentado na cama. “Filho, gostou do meu cabelo?” “Ficou muito bom, mãe, perfeito para a ocasião”, disse, enquanto rodava o olhar pela cabeça da mãe. “Talvez não tenham visto ainda.”

Os carros começaram a chegar: Tio Antônio, com os seus, Tia Nastácia e o marido. Logo chegou o serviço funerário. Deviam preparar o caixão e os arranjos de flores.

“Onde está o corpo?” perguntou educadamente um dos funcionários, colocando a luva e tirando alguns panos do banco de trás. “No segundo quarto à direita, siga em frente naquele corredor.” “Obrigado e com licença”, a última palavra foi dita já no umbral da casa. Roberto esperou do lado de fora, sabia que as falas de indignação contra ele viriam, por isso teve medo de se aproximar dos demais.

Minutos depois, os homens arranjavam o caixão no centro da sala. Roberto não se movia, apenas olhava, estupefato. Acertaram as coroas de flores ao lado da cabeça, ajeitaram os crisântemos que contornavam o corpo, limparam o chão e saíram; foram esperar no carro da funerária (era esse o procedimento). Roberto entrou em casa. A tia conversava com a mãe, o pai falava de política com o tio. “É impossível viver dessa maneira”, escutou alguém exclamar. Teria sido a avó? O rapaz fixou os olhos no corpo. Estava absolutamente imóvel. Ainda bem, tudo certo. Vovó voltara a morrer! Roberto animou-se. Serviu bebida, elogiou as trufas, sugeriu salgados. Os convidados chegavam, o barulho era cada vez maior. Roberto sentiu-se orgulhoso, seu evento era um sucesso: a comida, elogiada; os convidados, ruidosos; e o defunto — morto.

Chegou o momento do discurso de despedida, que ficou por conta do tio Mucior. Orador objetivo, não teceu frases piegas, embora tenha navegado pelos mares do lugar-comum. “Trouxe mais dignidade à família”, “Era uma pessoa exemplar e correta” etc. As pessoas ouviam em silêncio, olhavam entediadas para os sapatos, miravam a comida na mesa.

Carregaram o corpo até o carro funerário. Seguiu-se o cortejo até o cemitério, que era próximo, sem problemas de nenhuma ordem. Quanto mais as coisas corriam de acordo com as expectativas comuns, mais extasiado Roberto se sentia. Era um espírito emancipado.

Findo o enterro, enquanto todos se despediam e seguiam para suas casas, Roberto respirava tranquilo. Seu orgulho transbordava; era um homem completo em cada gesto, em cada palavra.

Último a deixar os pés do túmulo, caminhava atrás dos pais. De repente, estacou! “E se tivermos enterrado a vovó viva? E se ela estiver apenas dormindo?!” Mas o susto durou apenas um segundo, logo um outro pensamento, muito mais dominador, veio em seu auxílio: “Fiz tudo conforme se esperava de mim. Cumpri perfeitamente com a minha obrigação. Sou um homem correto.” Roberto dormiu sorrindo àquela noite, satisfeito pelo trabalho bem realizado.



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